Assassinato da Língua Portuguesa em legítima defesa

Erros de português são imperdoáveis quando cometidos por comunicadores, certo? Errado. Há chances de o redator publicitário ser perdoado.

O “assassinato” da língua portuguesa pode ser cometido no caso de legítima defesa por esse profissional. Como assim?

Muitas vezes o redator precisa adaptar um errinho para que o texto fique mais rítmico, como no caso do slogan da Caixa Econômica Federal: “Vem pra Caixa você também”. Imagine se fosse escrito na forma correta: “Venha à Caixa você também”. Horrível!

O slogan da Magazine Luiza cometeu o crime com a mesma arma – o verbo Vir. “Vem ser feliz” ao invés de “Venha ser feliz”.

Nos dois casos não há sonoridade na forma correta da construção frasal. Por isso os redatores desses casos são inocentes.

Outra arma usada nesses crimes é a informalidade. Desde que somos alfabetizados sabemos que devemos ter cerimônia na forma escrita. Acontece que o redator publicitário precisa falar a língua do público-alvo.

Nem todos os textos comerciais são feitos para serem percebidos dessa forma. A maioria é criada para ser agradável, emocional, engraçada, etc. Se o público é informal, seu texto é informal.

Nesse caso, o réu, Rynaldo Gondim, criou um texto para a marca Havaianas, voltado às mulheres. O texto fala de praia e cidade, lugares onde não vivemos formalmente. Ele usou “pra” – abreviação de “para” e “pezinho” – diminutivo de “pé”, que causaram aproximação com a leitora.

Roberto Pereira, o próximo a ser julgado, criou para a Artex um texto usando o “a gente”. A abordagem do anúncio é humorística. Imagine que graça teria escrever: “Nós não sabemos se rimos ou se choramos”.

Portanto, Rynaldo e Roberto, ambos da AlmappBBDO, são inocentes.

Já neste caso, também vindo da AlmapBBDO, o réu é culpado. Nunca se separa o sujeito do predicado.  Esse não chega a ser homicídio duplamente qualificado, mas é um crime gravíssimo. E se a defesa quiser se manifestar, por favor, sinta-se a vontade.

http://www.youtube.com/watch?v=-z4JxFtik88 ou http://www.youtube.com/watch?v=ZJs8j14dA2I&NR=1

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10 pensamentos sobre “Assassinato da Língua Portuguesa em legítima defesa

  1. Estou completamente apaixonada por este blog!!!
    Sou jornalista, mas estou precisando estudar redação publicitária para um concurso público.
    Tudo muito claro e inteligente, como a própria publicidade deve ser.
    Parabéns, Aline!

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  2. há classificações equivocadas por aqui, vamos lá:

    para>pra é um fenômeno fonético, ‘com um pezinho’ é uma forma nominal cristalizada, ‘a gente’ é um tipo de sujeito de referência genérica.
    temos que tomar cuidado, pois quando designamos essas variações como “erro”, estamos desprezando os fenômenos por trás dessas ocorrências.
    obviamente, é um desvio da norma culta, porém, em publicidade, não há essa delimitação. a variação é uma coisa, o erro ( se fosse agente junto, por exemplo) é outra. ;o)

    fora isso, o blog é excelente, a começar pelo trocadilho.
    abraço!

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    • Olá, Christina. Primeiro, agradeço a visita, o elogio e o comentário. Quando juguei como “erro” foi, claro, na forma escrita da língua, isso partindo de comunicadores. Um jornalista, por exemplo, não pode escrever “pra”, mas o redator publicitário pode.

      Esses fenômenos são aceitáveis na língua falada de um modo geral (foi isso que aprendi rs), mas o seu comentário é bastante pertinente.

      Obrigada e volte sempre.

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  3. Oi, Aline! Bom, em primeiro lugar, gosto muito do seu blog. Parabéns!

    Quanto ao uso da vírgula no último exemplo que vc mostrou, não achei uma resposta de fato (ainda tô procurando…), mas eu desconfio que há exceções para uma das regras mais claras da gramática – a de que não se separa sujeito e predicado.

    Uma vez, eu achei um texto na internet, de uma professora de português se não me engano, que dizia que é possível sim colocar vírgula entre sujeito e predicado, mesmo quando não há palavras intercaladas, como um aposto. Ela dizia que essa era uma visão mais moderna do uso da língua portuguesa. Bom, infelizmente eu não acho esse texto de novo…

    Mas veja só… achei em um fórum de discussão esse debate sobre uma frase de José de Alencar: “A habitação que descrevemos, pertencia a D. Antônio de Maria…” (O Guarani, José de Alencar). Tem uma vírgula escancarada aí, que julgaríamos errada. Mas eu não me atrevo a julgar José de Alencar 😛

    Enfim, uma das pessoas discutindo no fórum achou uma possível explicação na gramática, que eu transcrevo aqui:

    “A gramática de J Nicola e Infante diz que, quando há verbos da oração subordinada (descrevemos) e da oração principal (pertencia) muito próximos, pode-se colocar uma vírgula, separando-se estes verbos. CONTUDO, o exemplo que eles nos dão é no caso da oração subordinada ser muito longa e aí o uso da vírgula é justificado por motivos de clareza, nao por motivos lógico-sintáticos. O exemplo da gramática é:
    A lagoa que a meninada esperta do bairro costumava visitar, foi aterrada. (Vê-se que a subordinada é muito longa).
    E agora fica a interrogação: na frase do Alencar, a subordinada é curta, mas os verbos das duas orações estão próximos. Seria este o motivo?”
    http://forum.wordreference.com/showthread.php?t=87060

    Talvez o exemplo que vc usou se encaixe nessa exceção? Enfim, ainda estou investigando o caso, porque já faz algum tempo que desconfio que a vírgula separando sujeito e predicado não é tão proibida assim.

    Desculpe pelo comentário tão longo! Até!

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    • Oi, Luiza. Fic feliz por gostar do blog e achei ótimo seu comentário. Afinal esse é um lugar para se discutir a redação rs.

      Bem legal a explicação que você encontrou e pode ser sim a resposta a tal visão moderna do uso da língua portuguesa. Pelo que explicaram, o texto da AlmapBBDO ara a Abap é justificado. Será que o réu está prestes a ser inocentado?

      Algum professor de português e linguística nos ajude!

      Beijos, Luiza. Volte sempre =)

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      • Olá,
        Sou formada em Letras e faço revisão de textos. Quem sabe posso ajudá-las a entender melhor esse assunto, citando a explicação que o Prof. Cláudio Moreno dá em seu livro Guia Prático do Português Correto – Pontuação.

        “É muito comum, em nossos maiores escritores, o emprego dessa vírgula depois de sujeito oracional iniciado por ‘quem’. […] Os bons escritores empregam, muitas vezes, uma vírgula para assinalar com maior clareza o fim do bloco do sujeito.”

        Portanto, o uso dessa “virgulazinha” na frase da propaganda em questão (“Quem quer vender, faz propaganda”) é de uso facultativo. Contudo, a exemplo daquele livro com o título “Quem ama, educa”, é preferível empregá-la para dar mais clareza à mensagem.

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  4. Desculpe-me, mas em “Vem ser feliz” só haveria erro se houvesse desrespeito à uniformidade de tratamento, como ocorre na propaganda da Caixa. Em “Vem ser feliz (Tu)” ou “Venha ser feliz (Você)”, as suas pessoas no imperativo são possíveis.
    Aconselho mais cuidado.

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